Questionário de Valores de Schwartz: como a escala funciona
Quem procura 'o questionário de Schwartz em PDF' quase sempre quer entender o instrumento, não só baixá-lo. Aqui está como a escala é construída, como se pontua e o que o resultado significa de verdade.
28 de julho de 2026 · 11 min de leituraQuem procura "questionário de valores de Schwartz", "escala de valores de Schwartz" ou o famoso "PDF" geralmente esbarra em três coisas: uma dissertação de mestrado com o instrumento no anexo, um artigo de periódico atrás de jargão estatístico, ou uma cópia solta num site de compartilhamento de arquivos — sem instruções, sem chave de correção e sem qualquer explicação de como ler o que sai dali. É pouco, e é justamente a parte que não importa.
Porque um questionário sem o método de pontuação é uma lista de frases. O que dá sentido às respostas é o procedimento: como os itens se agrupam nos 10 valores, como os 10 se resumem em 4 eixos, e — o passo que quase todo mundo pula — como corrigir a escala pelo seu próprio jeito de responder antes de comparar qualquer coisa. Este texto explica o instrumento por dentro: as versões que existem, quantos itens cada uma tem, como se pontua e o que o resultado consegue (e não consegue) dizer.
Não existe "o" questionário de Schwartz — existem quatro
A primeira fonte de confusão é achar que há um único instrumento. Não há. Ao longo de três décadas, Schwartz e colaboradores desenvolveram uma família de escalas, cada uma com uma lógica de item diferente. Elas medem a mesma coisa — a sua hierarquia de valores — mas perguntam de jeitos bem distintos, e isso muda quem consegue responder bem cada uma.
As principais versões da família de instrumentos de Schwartz. O número de itens varia levemente entre edições e traduções.
| Instrumento | Itens | Como pergunta | Onde é mais usado |
|---|---|---|---|
| SVS Schwartz Value Survey | 57 (56 na versão de 1992) | Lista de valores abstratos (um substantivo com uma frase explicativa curta). Você julga o quanto cada um é um princípio orientador na sua vida. | Pesquisa acadêmica com adultos escolarizados; foi o instrumento original da teoria. |
| PVQ-40 Portrait Values Questionnaire | 40 | Retratos verbais: descrições curtas de uma pessoa fictícia (o que ela quer, o que é importante para ela). Você diz o quanto essa pessoa se parece com você. | Populações gerais, adolescentes, pessoas com menor escolaridade — é bem mais concreto que o SVS. |
| PVQ-21 | 21 | Mesma lógica de retratos, versão enxuta. | Grandes levantamentos populacionais, onde o espaço de questionário é caro. |
| PVQ-RR (teoria refinada) | 57 | Retratos verbais cobrindo os 19 valores da revisão de 2012. | Pesquisa que precisa de granularidade fina dentro do círculo. |
A diferença entre SVS e PVQ não é cosmética. O SVS pede um julgamento abstrato: você avalia diretamente conceitos como igualdade, autoridade, criatividade. Isso exige um grau de reflexão conceitual que nem toda pessoa entrega com precisão. O PVQ resolveu isso invertendo a pergunta: em vez de julgar um valor, você compara-se a alguém descrito por um comportamento e uma motivação. É mais fácil dizer "essa pessoa se parece comigo" do que atribuir uma nota a um princípio no vácuo — e é por isso que as versões PVQ dominaram os levantamentos de população geral.
Como a escala de resposta funciona
Cada família tem sua própria escala de resposta, e o formato é parte do método:
- ◆SVS — escala assimétrica de 9 pontos, que vai de "oposto aos meus valores" (um ponto negativo, deliberadamente) até "de importância suprema", passando por "sem importância". A assimetria é intencional: quase ninguém considera um valor humano básico como algo ruim, então o topo da escala precisa de mais degraus que a base para conseguir separar as pessoas.
- ◆PVQ — escala de 6 pontos de semelhança, de "se parece muito comigo" a "não se parece nada comigo". Sem ponto neutro no meio, o que força uma inclinação para um dos lados.
- ◆Ambos — os retratos do PVQ são apresentados no gênero correspondente ao de quem responde, porque a comparação depende de você conseguir se projetar na descrição.
A pontuação, passo a passo
É aqui que quase toda aplicação improvisada erra. Pontuar Schwartz não é somar e ranquear — tem um passo de correção no meio que não é opcional.
- 1.Agrupar os itens por valor. Cada um dos 10 valores é medido por um subconjunto de itens (no PVQ-40, entre 3 e 6 itens por valor). O escore bruto de cada valor é a média dos seus itens — média, não soma, justamente porque os valores têm quantidades diferentes de itens.
- 2.Calcular a sua média geral. Some todas as suas respostas, em todos os itens, e tire a média. Esse número — na literatura, o MRAT (mean rating) — é o seu "nível de uso da escala": o quanto você, como pessoa, tende a marcar notas altas ou baixas em geral.
- 3.Centrar (o passo ipsativo). Subtraia a sua média geral do escore de cada valor. O resultado deixa de ser "o quanto você valoriza X" e passa a ser "o quanto X pesa mais (ou menos) do que a sua média". Valores acima da sua média ficam positivos; abaixo, negativos.
- 4.Ordenar. Os 10 valores centrados formam a sua hierarquia: quais prioridades vencem quais, dentro de você. É esse ranking — e não a nota bruta — que a teoria interpreta.
- 5.Agregar nos 4 eixos. Média dos valores que compõem cada eixo de ordem superior, sobre os escores já centrados. Isso dá o quadro grande: as duas grandes tensões.
Uma leitura da sua hierarquia, sem planilha
O Teste de Valores do Oráculo não é o SVS nem o PVQ: são 20 dilemas próprios, escritos a partir do círculo de 10 valores de Schwartz. Como cada dilema obriga a escolher uma prioridade em vez de pontuar todas, o resultado já sai como hierarquia relativa — a mesma lógica que a centragem busca, por outro caminho.
Fazer o Teste de ValoresComo se lê o resultado: os 10 valores
O produto final não é uma nota nem um tipo — é uma ordem. Os 10 valores aparecem ranqueados do que mais pesa nas suas escolhas ao que menos pesa. Todos os 10 existem em você; nenhum está "ausente". Um valor no fim da sua lista não significa que você o despreze, e sim que, num conflito, ele tende a ceder para os que estão acima.
- ◆Autodireção — pensar e agir com independência.
- ◆Estimulação — novidade, desafio, excitação.
- ◆Hedonismo — prazer e gratificação para si.
- ◆Realização — sucesso demonstrando competência.
- ◆Poder — status, prestígio, controle sobre recursos.
- ◆Segurança — estabilidade e harmonia.
- ◆Conformidade — conter impulsos que violem normas.
- ◆Tradição — manter costumes herdados.
- ◆Benevolência — bem-estar de quem está perto.
- ◆Universalismo — bem-estar de todos e da natureza.
Como se lê o resultado: os 4 eixos e as duas tensões
Os 10 se agregam em 4 eixos de ordem superior, dispostos em dois pares opostos no círculo. Ler os eixos é ler o mapa em escala menor — perde detalhe, ganha estrutura:
As duas grandes oposições do círculo. Um polo alto tende a implicar o polo oposto mais baixo — é a assinatura estrutural da teoria.
| Tensão | Polo | Polo oposto |
|---|---|---|
| Autonomia × Ordem | Abertura à Mudança (Autodireção, Estimulação, em parte Hedonismo) | Conservação (Segurança, Conformidade, Tradição) |
| Eu × Os outros | Autopromoção (Poder, Realização) | Autotranscendência (Benevolência, Universalismo) |
Um resultado bem lido responde três perguntas: quais valores encabeçam a sua lista, quais ficam no fim e — a mais útil — onde estão as suas tensões ativas, isto é, valores altos que ficam em lados opostos do círculo. É essa terceira leitura que costuma explicar decisões difíceis: não é indecisão, é o círculo em ação. Se isso ressoa, vale ler o texto sobre o que fazer diante de um conflito de valores.
As limitações (a parte que o PDF nunca traz)
Nenhum instrumento de autorrelato é uma medida limpa, e ser honesto sobre isso é parte de usá-lo bem:
- ◆Desejabilidade social. Valores são carregados moralmente. Universalismo e Benevolência "soam bem"; Poder e Hedonismo "soam mal". A tendência a se apresentar favoravelmente inflaciona uns e deprime outros — e ela opera mesmo quando ninguém está vendo a resposta. A centragem ipsativa atenua parte do problema, mas não o elimina.
- ◆Estilo de resposta. Além do nível médio (corrigido pela centragem), pessoas diferem no quanto usam os extremos da escala. Isso comprime ou estica as distâncias entre os seus valores.
- ◆Escores são relativos, nunca absolutos. Um valor "negativo" após a centragem não significa que você seja contra ele — significa que está abaixo da sua própria média. Comparar o seu escore bruto com o de outra pessoa, sem centrar os dois, é comparar réguas diferentes.
- ◆Contexto e momento. Diferente de traços, valores são prioridades que podem se reorganizar com a idade e com viradas de vida. O resultado é uma fotografia de agora, não uma sentença.
- ◆Tradução importa. Um instrumento traduzido não é automaticamente equivalente ao original: adaptação transcultural exige verificar se a estrutura circular se reproduz na nova população. É exatamente esse tipo de trabalho que Tamayo e Schwartz fizeram para o Brasil.
- ◆Não é diagnóstico nem avaliação de caráter. Nenhuma hierarquia de valores é melhor que outra, e nada aqui serve para selecionar, classificar ou julgar alguém.
Se o que você quer é aplicar em outras pessoas
Vale separar dois usos que a busca por "PDF" costuma misturar. Autoconhecimento — você quer entender as suas próprias prioridades — é o uso mais comum, e para ele uma aplicação online que já faz a correção resolve melhor do que uma folha impressa. Pesquisa — você vai coletar dados de uma amostra, analisar e publicar — é outro jogo: aí você precisa da versão oficial do instrumento, da sintaxe de correção e, no Brasil, da aprovação do seu comitê de ética. O caminho correto nesse caso é procurar o material junto ao autor ou às fontes acadêmicas que o distribuem para fins de pesquisa, não uma cópia solta na internet.
Há ainda um terceiro caso: uso organizacional — seleção, avaliação, decisões sobre pessoas. Esse é o uso mais delicado de todos, porque a desejabilidade social explode quando há algo em jogo, e porque valores não foram feitos para prever desempenho individual. Para pensar em ajuste entre valores e trabalho de forma honesta, o texto sobre valores de Schwartz e carreira trata do assunto sem prometer o que a psicometria não entrega.
Valores não são traços — e o instrumento reflete isso
Um último ponto que muda a leitura: o questionário de Schwartz mede o que você considera importante, e não como você tende a ser. São camadas diferentes. Traços de personalidade — medidos por instrumentos como o HEXACO ou os Cinco Grandes Fatores — descrevem padrões de conduta relativamente estáveis. Interesses — como no modelo RIASEC — descrevem com o que você gosta de se ocupar. Dá para valorizar muito a autonomia sem ser um traço especialmente aberto a experiências. Por isso os escores de valores nunca produzem um "tipo": produzem uma ordem de prioridades, que é uma informação de natureza diferente.
Veja a sua hierarquia sem precisar de planilha
O Teste de Valores gratuito do Oráculo devolve a ordem em que os 10 valores de Schwartz pesam para você, com a leitura das suas tensões no círculo. São 20 dilemas próprios — não é o SVS nem o PVQ, e não substitui um instrumento de pesquisa.
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Perguntas frequentes
Qual a diferença entre o SVS e o PVQ de Schwartz?+
O SVS (Schwartz Value Survey) apresenta 57 valores abstratos — eram 56 na versão de 1992, e a de 57 itens virou o padrão da literatura — e pede que você julgue a importância de cada um como princípio orientador, numa escala de 9 pontos. O PVQ (Portrait Values Questionnaire) usa retratos verbais — descrições curtas de uma pessoa — e pergunta o quanto ela se parece com você, numa escala de 6 pontos. As versões mais conhecidas são o PVQ-40, o PVQ-21 e o PVQ-RR (57 itens, ligado à teoria refinada de 2012). O PVQ é mais concreto e funciona melhor em população geral; o SVS exige mais abstração.
Quantos itens tem o questionário de valores de Schwartz?+
Depende da versão: o SVS tem 57 itens (eram 56 na versão original de 1992); o PVQ-40 tem 40; o PVQ-21 tem 21; e o PVQ-RR, ligado à teoria refinada de 19 valores, tem 57. Todos medem a mesma estrutura circular de 10 valores e 4 eixos (ou 19 valores, no caso do PVQ-RR).
Como se calcula o resultado da escala de valores de Schwartz?+
Primeiro calcula-se a média dos itens de cada valor. Depois calcula-se a sua média geral em todos os itens e subtrai-se essa média de cada escore — é a centragem ipsativa. Só então os 10 valores são ordenados, formando a sua hierarquia, e agregados nos 4 eixos. Sem a centragem, o resultado mede em parte o seu estilo de responder, não as suas prioridades.
Por que é difícil achar o questionário de Schwartz em PDF?+
Porque ele circula sobretudo em contextos acadêmicos — anexos de dissertações, artigos de periódicos e material fornecido pelo autor a pesquisadores. Cópias soltas na internet costumam vir sem instruções, sem a chave de correção e sem o passo de centragem, o que produz um resultado não interpretável mesmo quando os itens estão corretos.
O resultado do teste de valores é confiável?+
Ele oferece clareza, não certeza. Instrumentos de autorrelato são afetados por desejabilidade social (valores como Universalismo soam melhor que Poder) e por diferenças no uso da escala. A centragem pela média individual corrige parte disso. E, diferente de traços, valores podem se reorganizar ao longo da vida — o resultado descreve prioridades de agora, não uma identidade fixa.
Posso usar a escala de Schwartz para avaliar candidatos em uma seleção?+
Não é um uso recomendável. Quando há algo em jogo, a desejabilidade social aumenta muito, e valores não foram desenvolvidos para prever desempenho individual no trabalho. O modelo serve bem à reflexão sobre ajuste e sentido — não à classificação de pessoas.